27 de nov. de 2015

O que estamos ouvindo?



Fiquei espantado com uma declaração feminina sobre a rapper Nicki Minaj e seu clipe Anaconda - “Um clipe de uma música idiota! ”. De fato, batida envolvente, refrão chiclete, danças na selva e bunda, muitas bundas. Mas pensei em outros clipes nas diferentes marginalizações. 

Uma das explosões de críticas, foram para o Bonde das Maravilhas em 2013 com seu irreverente “Quadradinho de Oito”. Não faltaram pedras. A começar pela classe social, depois pelo apelo sexual e não podemos esquecer que são mulheres, moças no caso. Colocaram em dúvida até o grau de escolaridade das integrantes em dizer que um quadrado não tem oito lados. Realmente não tem e elas não disseram isso. O quadradinho é o movimento feito pelo quadril e o “de oito” refere-se à posição das pernas cruzadas em forma de 8 com as costas apoiadas no chão. Daí pensei, o preconceito realmente é fruto da ignorância. Imagina se as letras do Bonde das Maravilhas fossem como as da Nicki Minaj. Seriam linchadas. Eu particularmente desaprovaria apenas pelo fato de que algumas das integrantes serem menor de idade, ok. Então vamos para a então rainha do Funk. Valesca Popozuda.

Com um histórico de músicas nada comportadas quando era vocalista da Gaiola das Popozudas Valesca lança em dezembro desse mesmo ano o “Beijinho no Ombro” seu primeiro clipe de careira solo. Logo é sensação. Para isso mudou seu estilo de vestir, usa roupas de grife, estuda outras línguas, ganhou até as páginas da edição brasileira da revista Vogue em março do ano seguinte. Isso mudou a forma como as pessoas ver o funk e a mulher que canta funk? Não! 

Em abril de 2014 o professor de Filosofia, Antônio Kubitschek, do Centro de Ensino Médio 3 de Taguatinga, no Distrito Federal citou a cantora como pensadora contemporânea em uma prova de múltipla escolha onde os alunos deveriam completar o trecho da música. E então! Raios e trovões novamente. Um rastro de ódio se espalhou pelas mídias sociais, filas de bancos e pontos de ônibus.
 Em entrevista à rádio CBN o professor falou. "Por que não posso chamar a Valesca de pensadora? Qualquer pessoa que consiga construir um conceito é um filósofo. A todo momento em que você abre sites e revistas de fofocas, aparece que fulano 'deu beijinho no ombro'. Ela acabou criando um conceito. Se ela influencia a sociedade com o que ela pensa, eu a considero sim uma pensadora". Daí pensei, novamente o preconceito realmente é fruto da ignorância.

Maurício Ricardo, chargista brasileiro, criou um vídeo simulando uma entrevista com a Valesca sobre esse episódio.


 Só ouvi verdades. 

O tempo passou, hits vão, hits vem e veio. Eis que em maio de 2014 surge Jason Derulo com seu Wiggle no primeiro semestre de 2014. Batida envolvente, refrão chiclete, danças, bundas, muitas bundas. Logo caiu nas graças do povo. A narrativa necessariamente cita um cara admirando a bunda de uma garota e o que poderia fazer com ela. O clipe, uma festa na piscina, a letra, uma maravilha que vai de “você sabe o que fazer com essa grande bunda ” e o nível vai descendo em “quero tirar sua roupa”, “experimente as gotas da minha chuva” e pasmem “até minha penetração profunda depois eu vou tirar e esfregar em você”. De homem a mulher pulam nas boates, tocam nos carros de som, e nos celulares.

Em agosto do mesmo ano veio a então Anaconda a rapper narra dois possíveis relacionamentos, reais ou não, vai saber, com dois homens em tempos e locais distintos, mas ambos regados a drogas, sexo, armas e roupas de grifes. Enquanto o clipe se passa em uma espécie de resort na selva a letra vai para a cidade com “minha anaconda não quer nada a menos que tenha um bundão”, “estou chapada”, “já chego e transo com ele no meu carro” isso e mais um pouco fez o clima nublar e a chuva de pedras cair. Como assim!?
Ambas as músicas falam exatamente a mesma coisa. Sexo. A diferença é o gênero sexual de quem canta. O que mais me espanta é o fato de que muitas mulheres vão contra a Nick, mas pulam ao som do Jason. Faz sentido? Não, nenhum! O homem pode fazer uma exaltação apelativa do corpo feminino e a mulher não? E o pior que isso parece está na cabeça não apenas da maioria dos homens, mas das mulheres, não todas é claro. 

Sobre a sexualidade feminina nas músicas, parece que talvez o problema não seja rebolar a bunda, o Tchan fazia isso, ou falar de sexo explícito ou ser da periferia, a questão é que não pode ser mulher a falar sobre isso, não é bem visto sabe.

23 de fev. de 2015

Distribuindo Ignorância e Preconceito.

Porque alguns meios de comunicação insistem em ridicularizar a cultura e religião afro-brasileira?

Dia 19/02/15 o programa humorístico Tá no Ar da rede Globo (que surpresa!) apresentou uma animação de nome Galinha Preta Pintadinha usando canções com referências afro parodiadas da animação original Galinha Pintadinha de publico infantil. Foi apresentada sobe o mesmo contexto de paródias a Galinha Convertidinha e seu amigo Cão Pastor com cunho evangélico antagonizando com a anterior. A Globo acerta ao criticar a forma capitalista como as igrejas vem se perpetuando mas erra feio erra rude ao atar à corda a Galinha Preta Pintadinha e efetuar o que parece um exorcismo. Qual a intenção dessa associação senão marginalizar e ridicularizar o Candomblé, Umbanda e demais cultos afro-brasileiros.

O humor tem sua característica divertir, tirar riso, tornar cômico uma situação, o que não entendo é como a ofensa se encaixa nisso.
Certa vez me veio em mente uma observação. As pessoas parecem se sensibilizar mais com desastres em massa como as bombas atômicas no Japão e o Holocausto durante e segunda grande guerra, com grande numero de mortos em curto prazo. O mesmo não ocorre com o processo de escravidão que durou longos anos matando e induzindo sofrimento por longos períodos, sofrimento este que se adaptou se mantendo até os dias de hoje aos descendentes das pessoas que foram escravizadas. Me pergunto se a situação seria a mesma se por ventura em um ato de ódio e descontentamento vários "sinhôzinhos" ateassem fogo em umas 45 senzalas lotadas de escravos?

Com o advento das novas tecnologias, aqui citando a telecomunicação, as noticias chegam as pessoas mais rápido e em alguns casos em tempo real, nesse meio tempo opiniões são divulgadas e nesse caso induzidas sobe a forma de humor.
O humor faz uso de algo que particularmente acho sensacional, os bordões, palavras ou frases que são a identidade do personagem e da mensagem a ele associada, diferenciando dos demais, eternizando-o na memória das pessoas. E é ai que mora o perigo. A eternização de uma ideia, conceito ou opinião.

Uma informação resumida é mais fácil de ser assimilada o problema é quando ela é deturpada como é o caso dos cultos afro que no seculo XX foram duramente perseguidos pelas autoridades e por algumas igrejas católicas que associou alguns termos pejorativos ao se referir a eles, como é o caso da palavra macumba que passou de instrumento musical à despachos em cruzamentos, a Pomba Gira de especialista em amor e mensageira dos Orixás à demônio, Exu de guardião entre o mundo material e o espiritual à demônio, entre outros. Como podem ver tudo associou-se a algo ruim.

Sou descendente de negro e índio e escuto de um tudo sobre ambos, as pessoas tem um criatividade incrível, mas algumas coisas realmente me entristece principalmente quando são baseadas na ignorância. Estamos na que chamam a era da informação e é justamente o que grande parte da população não a busca, justo atualmente quando ela é mais acessível.
As pessoas falam sem saber, falam o que “acham”. Eu particularmente ainda não tive oportunidade de conversar com um adepto dos cultos afro-brasileiros o que sei é o que leio em livros e revistas cientificas e culturais e justamente por isso evito disseminar achismos por onde vou.