Quem disse que a MPB tem maior valor que o Calypso?
Não concordo em aspecto algum com comentários
preconceituosos sobre esse ou aquele ritmo. Já começa pela supervalorização do
que é externo, como sempre a grama do vizinho é mais verde. Artistas
internacionais em alguns casos são mais valorizados que artistas locais, suas
músicas são mais conhecidas e arrancam suspiros, balanços e comentários do
tipo: “Nossa essa música é linda!”. Provável que seja, mas as criaturas
da massa não sabem nem falar português veja lá entender ou falar
inglês, uma vez que a maioria não sabe. Só se for colocando no Google Tradutor
e depois que a página é fechada some tudo da cabeça.
E ai de quem comente ou compare artistas nacionais
numa mistureira de ritmos. Ai a coisa fica feia: “Fulano é melhor”, “
Não, não, Deus me livre!”, “ Não sei como você ouve isso!”. Pular da ponte
ninguém quer. Temos quem imaginar o seguinte; cada ritmo brasileiro
nasceu em um determinado período sendo produzido por
um determinado grupo para um determinado grupo. Vale lembrar que
a diferenciação básica do status do ritmo, assim como a maioria das coisas, é a
posição social e aquisição financeira do grupo produtor. Um ótimo exemplo é o
ritmo conhecido como Brega no norte do Brasil que surgiu paralelamente com a
Bossa Nova no sudeste. Enquanto o ritmo nortista vinha com suas
letras simples e diretas voltadas para o dito “povão” a Bossa Nova aparecia com
suas belas letras poéticas e rebuscadas para a elite, e essa mesma elite tachou
a primeira de Brega, ou seja, inculto.
Convenhamos que ritmo algum se sobrepõe a outro.
Cada um tem seu espaço, público e ocasião. Acostumamos demais a destilar veneno
sobre assuntos que não temos base alguma, especialmente nessa geração 2000 que
esquece tão rápido de acontecimentos importantes, isso pra não dizer
que não falei das flores.
Paula Fernandes canta “Cavalga em meu corpo. Oh minha eterna paixão” e tá tudo bem. Já Banda Uó conta “Eu fui só a Égua que você galopou” e é brega e
erótico. Por quê? As duas frases falam a mesma coisa. Que moral é essa onde o
sentido tem que ficar oculto para ser aceito? É por isso que o “Brega”, o Hip
Hop, Toada e tantos outros ritmos sofreu, sofre e sofreram preconceito, pois
falam o que todos os ritmos fazem, falar de forma que seu público entenda.
Em entrevista ao site G1,
Reginaldo Rossi deu a seguinte declaração:
“Eu entendo inglês, francês e espanhol. Fiz faculdade de engenharia.
Estudei e poderia ter escrito: ‘Garçom, eu sei que estou sendo inconveniente,
que todo alcoólatra no estado etílico é desagradável’ (..) Mas prefiro dialogar
com o povão e cantar as dores do mundo de uma forma que tanto o pedreiro quanto
o médico me entendam", afirma, com um exemplo de como seria um trecho do
hit "Garçom" na forma culta.
Simples assim.
O Axé é tido, ironicamente, como o
ritmo mais fácil de compor músicas, pois usam apenas junções de vogais: “A
ê ô , ê ô!!” e de tão ruim como dizem ser, o Sertanejo adotou a mesma técnica
em seus “ Lê lê lês” e “Bará Barás”. Veja ai o poder de persuasão de uma ou
duas consoantes. Incrível!
Particularmente não sou fã de
nenhum ritmo, escuto de Caetano a Viviane Batidão. Se eu estou em um momento de
extrema alegria, a troco do quê vou ouvir Eduardo Lages? Da mesma forma que
quando estou em dias brandos não escuto J-Pop. O que tento é me policiar com
relação a expressar minha opinião como se fosse o detentor da verdade absoluta,
e querer impor essa verdade baseando se meu ídolo viaja suas turnês de avião ou
de ônibus.
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